Acordamos
Não queremos levantar. Mas levantamos. Sempre
Seguimos com Banho. Café da Manhã. Nem sempre nessa ordem.
Nos despedimos, sempre quando podemos.
Abrimos a porta e ganhamos o mundo. Sempre com a esperança de voltarmos.
Quantos de nós não fizemos isso hoje ?
Pois é. Também fizemos ontem, antes de ontem...
Aqui em casa hoje sempre é igual a ontem. Invariavelmente. Dinamicamente idêntico. Não ligamos, mas nossas famílias são metricamente metódicas, como um equipamento complexo que precisa que o manual de instrução seja sequencialmente cumprido para funcionar corretamente.
Eu, Lucas, tento compreender as origens dos clichês familiares. Talvez sejam transmitidos através das nossas gerações. Prefiro tentar entender a forma que esses clichês podem atuar no nosso cotidiano dinâmico. Decifrar porque somos cíclicos. Sem dúvida, são dessas repetições, desses clichês que sentimos ou sentiremos mais falta. Eles nos torna homens, amigos, uma família.
Eu, Lucas, começo com uma descrição que parece ocorrer na maioria das famílias - em verdade já presenciei varias vezes - e depois permeio algumas das peculiaridades dos meus clichês familiares. Apenas uma mera descrição.
Não parece, mas nossa casa vive.
E vive em perfeita homeostaisa com os seres que nela habitam.
A casa nos dá um local onde todos sempre se reúnem. Como um ritual estranhamente aparecemos lá, todos juntos mudos-falantes.
Seja na cama de casal da mãe,
Seja na mesa das refeições,
Seja no sofá frente a TV.
Não importa onde seja, o fato é que a casa permite nos escondermos nas entranhas da nossa família.
Em determinadas circunstancias tal homesotasia é quebrada. Nosso esconderijo foi transferido. E curiosamente, não nos sentimos tão mais em casa. Parece que algo foi retirado de nos.
Uma vez estava eu, Lucas, na casa de um amigo. Eu, Lucas era bem mais novo do que sou agora. Havia passado a tarde toda nessa casa. Não sei ao certo mas, mudaram a posição do sofá de três lugares que ficava milimetricamente orquestrado na sala em frente a TV, ao alcance do telefone, e próximo o suficiente para suspender os pés para cima do centro sem fazer grandes esforços.
- "qui" danado foi que fizeram aqui menino?
Acho que foram essas as palavras da matriarca da casa ao se deparar com tal "problema". Seu rosto permaneceu por vários dias rodeando em minha mente. Foi de um transtorno, desconforto quase que inigualável. 
O que representa o sofá da casa?
Ainda não sei exatamente, mas eu, Lucas, afirmo que essa(s) repetição(ões) familiar(es), esse clichê(es) em comunhão é o que nos torna família. Transcende a nossa selvageria.
Eu, Lucas, tenho outro exemplo-sofá. Na minha casa antiga. "Obviamente" tinha um sofá. O ponto de encontro. Estávamos de mudança para a casa nova. E a matriarca da casa então decidiu doar o nosso sofá. E fez isso um mês antes de nos mudarmos de fato para a nova casa. Resultado: ficamos sem um dos nossos principais clichês. Pareciamos que não estávamos em casa. Não assistíamos mas televisão. Tornamos-nos menos família. Era estranho. Foi estranho. Não era mais igual a ontem.
A casa com seu mecanismo homeostático liderou a reviravolta. Não iríamos agüentar por muito tempo. Foi simples.
Um quintal. Uma mesa. Algumas cadeiras. Uma rede.
Pronto. Após dias sem sofá, voltamos a ser uma família. Hoje voltou a ser igual a ontem. Sem perceber Sempre estávamos ali agora.
Para não ficar muito extenso, vou apenas listar alguns exemplos - um tanto quanto pessoais - dos clichês da minha família.
1) Assim que acaba uma novela da globo, seguida, logicamente de uma nova, esperamos a minha dizer que nunca mais vai assistir nenhuma novela. É inacreditável, mas D. Joana sempre diz. Não damos uma semana e lá está ela, D. Joana, aterrorizando com controle remoto.
2) Além disso, D. Joana, nunca viu um final do capitulo da novela. Como um gás de sono, a TV, provoca a quebra de seu pescoço. E lá está ela dormindo. Assim que sobe as letrinhas da globo, infalivelmente, ela acorda e fala: Me explica como foi...
3) Meu irmão sempre que pode se esconde quando eu estou chegando em casa. Eu, Lucas suponho que não tem ninguém em casa e pronto lá está o zé mama do meu irmão tentando me dar mais um susto. A recíproca é verdadeira, pois eu também me escondo.
4) Aqui em casa certos comentários e ações "não" são permitidos. Ai daquele que fala ou faz algo sem graça, sem nexo, ou algo demasiadamente reacionário. Você fica marcado eternamente. Pois, rirmos e mangamos indefinidamente.
5) Eu, Lucas e meu irmão nunca dormimos cedo. Sempre que acabamos de fazer nossas obrigações sentamos em frente a TV. Não importa a hora, nem o dia. Na maioria das vezes é só para ficar lá.
6) Minha mãe sempre tem que chamar alguém para sentar na mesa, até mesmo quando já estão todos sentados. E o mais incrível é que ela as vezes chama mesmo quando a comida não esta pronta.
7)...
Nossa família nos faz perceber que entre o hoje e o ontem não existem diferença. Sem modificações. Sem evoluções.
Um filosofo evolucionista, tentou me mostrar a evolução como um evento cíclico. Como uma passagem do heterogêneo difuso para o homogêneo equilibrado. Onde o ciclo irá recomeçar, se repetirá para sempre, mas sempre tendo o mesmo desfecho.
Quem sou eu, Lucas, um reles estúpido para me contrapor a uma idéia que passou por mais de 40 anos e dez volumes para ser explicada. Certo ou errado, Spencer mostra que talvez nossa família seja cíclica porque ela evolua, e por isso que hoje se começa um novo dia, heterogêneo difuso, e acabe igual a ontem. Com modificações. Com evoluções.